terça-feira, fevereiro 14, 2012

O Precioso e o Cheque em Branco.

O Precioso. Créditos: Miguel Monteiro



Esse é o Precioso! O meu irmão fez essa foto na Boavista e quando eu vi, lembrei-me logo das minhas férias de infância na Boavista. Lembrei-me de episódios únicos como assistir a luta das tartaruginhas a furar a casca e a atitude de empreendedora  de pular e contornar obstáculos rumo ao mar. É como se obedecem a um game plan definido no ciclo da vida que garante a sobrevivência da especie e contribui para o equilíbrio dessa biodiversidade. 

Infelizmente tem muita gente de olho no Precioso e apesar de uma maior protecção legal e institucional as ameaças à protecção desta espécie está a cada dia mais ameaçada. Tudo bem o Precioso tem um monte de inimigos dentro de água mas com esses a tartaruga usa a carapaça para se defender e à medida que vai crescendo nem os tubarões metem medo. Se fosse esse o problema estava tudo equilibrado e em harmonia.

O problema do Precioso é nosso também. Estamos todos expostos à sorte ao azar e à oportunidade de quem for o mais esperto a lançar mão aos nossos recursos para enriquecimento exclusivo. Enquanto os operadores nacionais são deixados à margem há investidores internacionais a aproveitarem-se do "abre pé" para se instalarem da maneira que melhor lhes convém. Além da construção de hotéis em zona privilegiada (no meio das dunas, em cima das praias) ainda beneficiam-se das condições extraordinárias de atracção do investimento externo. 
Google Earth View - Costa Sul da Boavista. Na linha da praia ao centro está o III RIU  Touareg da Boavista

Recentemente o Ministro do Turismo admitiu em entrevista à RTC que o Ministério ainda não tem um plano de acção. Esse navegar sem bússola é uma irresponsabilidade e evidencia uma visão reducionista do potencial de Cabo Verde enquanto destino turístico. As facilidades concedidas orientam-se para a realização de liquidez financeira a curto prazo e hipotecam permanentemente o desenvolvimento equilibrado dos recursos naturais, alienam o potencial da economia local e o seu entorno socio-cultural.  


Pior para nós é que, ao contrário do Governo, os investidores parecem ter um game plan. O hotel da imagem acima é o RIU TOUAREG que foi concluído à um ano. O 3o da Boavista e o 5o de Cabo Verde. Localizado mesmo em cima da Praia de Lacacão que é considerado um dos santuários de nidificação da espécie carreta-carreta. É também um ecosistema riquíssimo constituído pelas praias mais extensas de Cabo Verde onde se incluí a praia de Curral Velho e Santa Mónica.

Alguém que explique o porquê tanta exclusividade?

Claro que já há muitas vozes a se levantarem para fazer frente à problemática do turismo e há muito mais conscientização para as questões de impacto ambiental. Mas enquanto sociedade, os caboverdianos não tem sabido fazer frente a essas questões, estamos mudos. Desse modo o esforço de ONG's como o Natura 2000 para monitorar e desenvolver iniciativas que minimizem o impacto da actividade turística no ambiente ficam cada vez mais pressionados e isolados na sua acção.

Fatalmente estamos a perder terreno. Acabou de ser anunciado aqui que o RIU, Resorts & Hotels assinou um contrato com o Natura 2000 e passa a ser o único representante legal do projecto no país respondendo por todas as questões ambientais, negociando com o Governo e outras entidades ou fundações. 

O acordo prevé em troca uma contribuição anual ao Natura 2000 que continuará a fazer estudos e as auditórias em relação à protecção ambiental especificamente relacionadas ao trabalho que se tem feito com as tartarugas. A RIU, Resorts & Hotels se propõe a envolver-se activamente na protecção ambiental. Deixo as contrapartidas para vossa interpretação. 

"RIU guests will also have the opportunity to participate actively in environmental protection activities. Once a week, the hotels’ theatres will show a documentary on biodiversity in Boavista, while their entertainment department will organise educational games for children, and also turtle outings and releases for all guests. In addition to this, all guests will receive information on the activities of Natura 2000 who organise voluntary programmes and different initiatives throughout the year, which can involve visitors as well as the local population."

Comparado com o valor do trabalho da ONG que trabalha à 12 anos na protecção da espécie, essas contrapartidas são ridículas e vão criar mais espaço de manobra ao investidor para continuar a usufruir em exclusivo da terra dos nossos avós. De outro modo se de facto há essa consciência ecológica a RIU não precisa ser dono do PROJECTO NATURA 2000 mas antes devem assumir verdadeiramente a responsabilidade social. Ex.: Segundo relatado por jornalistas no terreno o lixo acumulado pela dinâmica dos 16 vôos semanais que chegam à ilha amontoam-se numa extensão de 5km e já é considerado a maior lixeira de Cabo Verde. Isso a escassos quilómetros do Resort.

Assim não nos iludamos. O acordo com o NATURA 2000 é antes um duro golpe. Um cheque em branco. Contrata um dos principais parceiros na área ambiental do país e depois de 5 resorts almeja agora é dar o cheque mate e invadir definitivamente o ninho do Precioso. Desculpa mas não tem preço.

"Ta flado ma na tera di segu, kololo e Rei ma guentis Turismo Sustentável é precioso dimas pa nu dexa bai!

4 comments:

Vadini Ferreira disse...

Muito bom Amilcar!
Eu ainda dei o beneficio da dúvida na página do face mas cheira, de facto, muito mal.

Amilcar Aristides Monteiro disse...

O que se alega é que o NATURA 2000 tem estado inactivo por razões diversas. O que me faz desconfiar da "filontropia" do RIU em resgatar o projecto é a exclusividade. Então eles agora é que representam o Projecto NATURA 2000? Isso é transferir um onus de uma decada de trabalho valoroso da ONG para uma entidade que trabalha para o lucro em exclusivo. Como é que essas coisas acontecem e ninguém diz nada?

Redy Wilson Lima disse...

Meu caro, ambos sabemos que aquilo que se iniciou nos anos 90 (a venda do país a retalho), ganhou contornos muito mais preocupantes nos anos 2000. Exemplos mundanos mostram que por detrás de todo o discurso filantrópico esconde-se a gula capitalista monopólica... pena tenho é das tartarugas e do futuro do país.

Amilcar Aristides Monteiro disse...

tudo isso é surpreendente. De facto as preocupações dos anos 90 tinham outra dimensão. O que permanece igual é a atitude do cidadão. entregou o poder nas urnas e ba disqueci. Enquanto isso o que esta a acontecer na BV e nas outras ilhas é completamente opaco pra o cidadão e assim nada surpreende e é tudo normal. Esta sociedad civil tem de acordar se não corremos o risco de repetir os ciclos até ser impossivel remediar nada.

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